“LUCIA NOVAIS BRANDÃO:  SUA VIDA”

 

CÓPIA DO TRABALHO PREMIADO, APRESENTADO POR MEIRE ª SILVA, NO II CONCURSO DE MONOGRAFIAS DA CIDADE DE CEDRAL ( Prêmio “GARCIA-CUILLÉN” de incentivo à pesquisa) - 1984.

     

“LÚCIA NOVAIS BRANDÃO, ESTA É SUA VIDA.

 

Espírito Santo do Pinhal, em 10 de outubro de 1903, nasce Lúcia Novais Brandão, filha de Júlio Loyola Brandão e de Alice Novaes Brandão. Miúda e com a saúde delicada, Lúcia foi a preocupação de seus pais, tios e avós que pensavam que não sobreviveria. Mas, Lúcia demonstra sua fibra e seu amor à vida desde seu nascimento. Supera todos os problemas físicos e cresce uma menina forte, sadia embora continuasse delicada em sua maneira de ser.

Muitos foram os momentos de alegria. Em 1910, aos 7 anos de idade, morando ainda em Espirito Santo do Pinhal, Júlio Brandão acordou todos os filhos, e com Lúcia ao colo foram à varanda da casa para ver o cometa Halley. Este foi um acontecimento marcante na vida de Lúcia, pois sempre o contava para seus alunos, filhos e netos.

Naquela época, moravam na mesma cidade seus avós e era seu avô quem ensinava geografia à Lúcia que, mesmo antes de começar a estudar, demonstrava interesse pelos fenômenos da natureza.

Mais tarde, seus pais mudaram-se para São Simão e foi lá que Lúcia passou o resto da infância, ao lado dos pais e irmãos: Benedita Novaes Brandão (apelidada por Didita), Antônio Novaes Brandão (o Tonico), e Maria José Novaes Brandão ( a Zezé). Nas brincadeiras com os irmãos, Lúcia demonstrava ser alegre, mas não extrovertida, meio fechada, porém estudiosa, inteligente e além disso tocava piano muito bem.

Sua juventude, ela a passou, principalmente em Casa Branca, na casa dos avós paternos.

Lá na casa da avó Búsica ( Ambrozina), Lúcia não se sentia só. Tinha como confidentes a prima Ceci e a tia Clélia.

Foi em Casa  Branca que freqüentou a escola  Normal. Quando estava estudando em Casa Branca, faleceu sua mãe, Alice Novaes Brandão. Seu pai Júlio, depois de  alguns anos, casou-se com sua tia, irmã de sua mãe. Nasceram deste casamento duas filhas: Regina Alice Novaes Brandão e Dulce Leila Novaes. Leila era chamada pela Lúcia de “Bico Doce”, por ter mania de beijar.

No dia 1º de dezembro de 1923, Lúcia formou-se professora e concluiu também o curso de piano. Neste dia, por ter concluído os cursos, recebeu de presente de seu pai um piano alemão.

Após a formatura, Lúcia voltou à casa dos pais em São Simão. Lá, tocava nas reuniões da cidade, freqüentava bailes e adorava dançar. Foi numa dessas reuniões da cidade que Lúcia conheceu José Vieira de Figueiredo, conhecido por Juca.

José de Figueiredo era Engenheiro Agrimensor e estava resolvendo um caso de divisão de terras em São Simão. Ele não tinha moradia fixa, mudava para as diferentes cidades de acordo com as causas jurídicas que arrumava. Sua família morava em Cajuru.

Em 1925, aos 22 anos de idade, Lúcia casou-se com Juca. E nesse mesmo ano, no dia 05 de março, ela começa a exercer a função de professora primária numa escola mista de São Simão. A escola era afastada da cidade, numa velha estação ferroviária, por isso era difícil para Lúcia lecionar lá.

Lecionou lá somente um ano e pediu exoneração, por ser difícil o acesso à escola, mas este seria apenas um pretexto já que para Lúcia não havia barreiras intransponíveis. O fato é que seu pai havia comprado uma fazenda em Cedral,  Juca e Lúcia vieram administrá-la.

Começa então  a nova vida de Lúcia em Cedral. Chegaram aqui em 1929, mas não vieram sozinhos. Lúcia estava grávida e naquela época, seu marido adotou um garoto de 9 anos, de cor escura, o João.

O pai de João era doente e morreu tuberculoso. A família não podendo cuidar do garoto, pediu ao Juca que o adotasse e eles o fizeram com carinho.

Quando chegaram foi difícil para Lúcia morar aqui, pois Cedral era como sertão, diferente de São Simão. São Simão era bastante habitada, com escolas, pracinhas, igrejas, e em Cedral as escolas eram precárias, a cidade mais parecia um sítio, não tinha nem água encanada!

Outro grave problema foi que nesse mesmo ano 1929, houve a queda da bolsa de valores em Nova York e o Brasil teve uma crise com ela. Por causa desse crack, o café sofreu uma grande queda de preço e a fazenda de Lúcia ficou hipotecada! Mas Lúcia e o esposo enfrentaram essa crise com bravura, firmeza, e obtiveram-na de volta.

Lúcia até então ficara sem lecionar, dedicando-se somente ao marido e ao filho.

Mas, Lúcia pensava seriamente em voltar ao trabalho de professora e só conseguiu seu objetivo em 1931, no dia 28 de fevereiro, no grupo escolar de Cedral.

Como professora sempre demonstrou dedicação profunda aos alunos.

Além das aulas normais, dava aulas de religião e de orfeon aos alunos, fora dos horários escolares, e muitas vezes em sua própria casa.

Aulas de reforço aos alunos de rendimento insuficiente eram normais na vida de Lúcia.

Costumava promover piqueniques, principalmente em dias de comemorações cívicas. Levava os alunos até sua fazenda e organizava gincanas, jogos, apresentações de poemas, cantos orfeônicos, tendo o terreiro de café como palco dessas realizações.

Desses eventos participavam também sua família, principalmente seus 4 filhos, na época ainda pequenos, Márcio, Analice, Zé Carlos e Julinho. Este caçula, faleceu  aos 4 anos de idade, deixando uma profunda tristeza nos olhos de Lúcia.

Umas de suas ex-alunas entrevistadas por mim, contou-me que por essa época, Lúcia, muito abalada com a doença do filho e sua posterior morte, quase não sorria. Seu semblante torno-se triste, mas nem por isso esmoreceu em sua dedicação como professora.

Sua preocupação com os alunos mais necessitados intensificou-se, chegando a comprar-lhes merenda e o material escolar.

Na sala de aula, segundo relato de muitos de seus ex-alunos, Lúcia era uma excelente professora.

Lúcia dava aulas à tarde,  revezando com a cunhada Isaura que dava aulas pela manhã.

Assim que Lúcia entrava em sala de aula, fazia a chamada de seus alunos, sempre pelo nome dos alunos e nunca pelo sobrenome.

Lúcia costumava fazer revistas, na espera de uma melhor higiene não só na sala de aula,  mas também na vida do aluno de modo geral.

Para se ter uma base de elegância era só olhar para Lúcia. Ia à escola sempre bem vestida, com um colar de pérolas ao pescoço, vestidos bonitos, mas sem muitos enfeites. Quanto ao tipo de calçado variava muito. Nos dias de chuva ia à escola com uma galocha em cima do calçado. Os alunos gostavam de vê-la bem arrumada e tentavam fazer o mesmo.

Lúcia era muito atenciosa na sala de aula. Quando tinham alguma dúvida, ela explicava tudo de novo. Sua matéria preferida era matemática, mas nem por isso abandonava o português. Quanto à leitura, Lúcia era bastante exigente. Não perdoava erros de S,  por isso seus alunos liam corretamente.

Era um pouco brava, diziam, mas as classes tinham uns 40 alunos, alguns muitas vezes eram grandalhões, briguentos, difíceis de aprender. Por isso precisava, às vezes, ralhar com eles.

Lúcia não deixava os alunos irem ao banheiro por qualquer motivo, nem comerem lanche na sala de aula, para que os alunos aprendessem regras de bom comportamento pessoal.

Para desenvolver a criatividade nos alunos, Lúcia dava-lhes trabalhos manuais. Ela riscava os panos, os alunos levavam-nos para casa e os bordavam. Depois de todos prontos, colocavam-nos em exposição na sala de aula.

Quanto às aulas de geografia, Lúcia mandava um aluno fazer o mapa do Estado de São Paulo, depois ia outro fazer as rodovias, as serras, as principais cidades, ilhas, tudo bem especificado.

Alguns que não faziam as obrigações, ela mandava-os para a diretoria. Quando voltavam da diretoria, vinham contando aos outros para amedrontá-los ou demonstrar coragem, que o diretor os punha em um quarto escuro onde tinha em esqueleto pendurado. Por isso os alunos tornavam-se mais prestativos e aplicados pelo medo que lhes causava.

Mas além das tarefas normais, dadas em sala de aula, Lúcia dava muita tarefa nas férias, como um reforço a mais.

Ela não gostava que os alunos chegassem atrasados à escola. Também não gostava que fossem sem uniforme, pois não os deixaria entrar.

Quanto não feitos os deveres, ficavam até mais tarde na escola para fazê-los, ou se não fizessem os deveres dados em sala de aula, como castigo ficavam assistindo à aula em pé, no canto da classe. Palavras escritas erradas, escreveriam novamente de 100 a 500 vezes. O mesmo aconteceria se fizessem malcriações ou brigassem, pois escreveriam suas faltas, sem reclamar.

Lúcia também gostava de ver os cadernos dos alunos bem limpos, organizados. Por isso exigia capricho e ordem em suas tarefas escolares.

Apesar de ser enérgica, Lúcia gostava muito de crianças, achava graça no que falavam e aceitava qualquer brincadeira que partissem delas, desde que não usassem maldades.

Ao findar o ano, ela beijava todos os alunos e em suas gravatas era acrescentada mais uma lista branca. Quase todos eram promovidos.

Para com os filhos, sempre agiu com doçura, carinho e era em seus aniversários que ela se sentia mais feliz. Conhecia profundamente seus hábitos. Contam que certa ocasião, Lúcia estava dando aula e ouviu um estranho barulho na parede. Chamou um servente e disse para ele ir buscar o aluno que estava batendo na parede e tinha certeza de que era seu filho Zé Carlos. Sempre acertava. Seu filho estava tentando quebrar um jatobá na parede.

Certa vez, alguns sobrinhos foram passar as férias em sua fazenda e como Lúcia tinha criação de galinhas no quintal, os sobrinhos pegavam os pintinhos, molhava-os n’água e diziam que o estavam batizando. Lúcia, quando descobriu, não brigou com eles, apenas riu e disse que preferia que seus pintinhos morressem pagãos.

Lúcia era a preferida deles. Quando não podiam ir à fazenda, mandavam cartas para a tia.

Jovem, bonita, baixa, magra, olhos castanho escuros, essa era a aparência de Lúcia desde solteira e que continuava mantendo através dos anos. Pintura dificilmente ela passava, pois em si tinha toda beleza natural, desejada por qualquer moça daquela época. Só  tinha mais cuidado com o cabelo, que era preto, repartido ao lado, curto no pescoço, do tipo A la garçone.

Sua pele era muito bonita, boa, nunca passava creme, sempre a lavava com sabonete e bucha.

Banhos, sempre demorados. Enchia a banheira de água morna e às vezes lia enquanto repousava na banheira.

Apesar de tão feminina e delicada em sua aparência, ela sempre demonstrou muita bravura.

Em 1932, com a revolução, Juca seu marido, era um dos líderes dos voluntários de Cedral. Um indivíduo “entregou” todos os participantes cedralenses e muitos foram presos. As tropas foram à fazenda prender Juca. Isaura e Lúcia, que estava grávida, enfrentaram e discutiram com os chefes das tropas. Eles desistiram. No mesmo dia em São José do Rio Preto, Juca encontrou-se com o chefe das tropas. Para sua surpresa, ele era um amigo de infância de Juca e por tal motivo, soltaram todos os reféns cedralenses.

Lúcia não gostava de política partidária, embora conhecesse bastante o assunto em si. Seu pai participava de política em São Simão e ela também foi 1ª dama em Cedral . Nem por isso participava das reuniões da cidade. Apenas participava das reuniões ou festas da escola e de bailes realizados em sua própria fazenda.

Lúcia freqüentava cinemas e teatros em São Paulo. Certas férias em 1941, Lúcia foi à São Paulo na casa da irmã  Zezé, onde morava também a irmã Regina. Durante o mês que passou lá, Lúcia ia,  todas as noites, ao teatro ou ao cinema.

Mas não era só Lúcia que ia à casa das irmãs, pois elas também vinham à sua casa. Ela costumava fazer doces e fazia um delicioso requeijão. Antes mesmo dela terminar o requeijão, os sobrinhos faziam fila para pegá-lo. Eles comiam rapidamente e entravam na fila de novo. Lúcia apenas ria e fazia que não percebia. À noite, ficavam em torno do fogão à lenha contando fatos e histórias conhecidas, bem como o enredo dos romances que lia.

Lúcia tinha verdadeira paixão por livros. Seu escritos preferido era Eça de Queiroz, mas isso não quer dizer  que desprezasse os outros, pois também gostava de Érico Veríssimo. Em sua casa tinha uma verdadeira biblioteca e quando pegava um livro, lia-o até o final.

Em sua casa sempre teve cachorros, gostava deles, embora nunca os pegasse ao colo.  

Seu animal preferido era a vaca, pela sua aparência de calma  e resignação e por dar alimento as crianças. Quanto à comida tinha certa preferência por carne de porco e de frango. Em casa, Lúcia tomava café no pires; derramava o café no pires e sorvia-o a goles curtos, demoradamente.

Quanto à vegetação, preferia rosas a cravos, folhagens não era muito de seu gosto. Tinha muito ciúmes da figueira plantada por ela, logo que chegou a Cedral. Frutas, de preferência laranja e jabuticaba.

Em casa, gostava de tudo limpinho, sempre teve empregada e cozinheira, por isso não cozinhava, embora o fizesse muito bem.

Lúcia fumava, mas deixava o hábito com facilidade. Nunca gostou de praticar esportes. Não andava a cavalo, nem de bicicleta, não era muito de nadar, nem de pescar.

Quanto a cores, Lúcia não tinha preferência, embora ao escolher o esmalte para as unhas, preferia o cor de rosa ao vermelho.

Lúcia adorava ganhar perfumes, principalmente o francês.

Também gostava muito de assistir à televisão, principalmente às novelas. Em 1968, ela viu o homem pisar pela primeira vez, na Lua. Naquele dia, Lúcia ficou à televisão até 3 horas da manhã, quando terminou a Odisséia.

Lúcia sempre se deu muito bem com as colegas de profissão, mesmo porque era compreensiva, calma, inteligente.

Gostava de apostar na loteria. Na última loteria do Estado de São Paulo, quando Getúlio Vargas veio apresentar Ademar de Barros  como Governador do Estado, seu marido Juca e Lúcia ganharam  200 contos de réis na loteria, com o número 1641. Isso foi o que os ajudou na manutenção dos filhos em cursos superiores. Todos os filhos estudavam em Campinas.

Com o passar dos anos, Lúcia viu seus filhos se formarem,  Márcio se casar, tornando-se vovó.

Ela deitava-se no chão para conversar com os netos, e com eles, tinha o mesmo afeto, o mesmo carinho e doçura que demonstrava ter com os filhos.

Lúcia sempre se deu muito bem com a nora e ajudava-a na educação dos netos.

O Natal era passado em São Simão, na casa de seus pais. Lá se reunia toda família.

Houve um final de ano diferente que marcou a vida de Lúcia. A família se reuniu em Poços de Caldas, em casa de veraneio e não em São Simão, como era de costume. Nas férias costumava ir à praia em Santos.

Lúcia, como já disse, tocava piano muito bem e gostava demais da música “Frasquita”. Tinha verdadeira queda pelo compositor polonês  “Chopin”, e gostava das músicas de Ernesto Nazaré, as valsas e chorinhos de Zequinha de Abreu. Mas nada disso é comparado à sua valsa predileta “Noites Calorosas”, esta tocada por Lúcia muito bem. Ela gostava de todas as músicas, desde que não fossem estridentes.

Mas Lúcia sabia dividir seu tempo muito bem. Sua vida era dedicada não somente à sua família, às suas canções, como também continuou dando aulas até 1957, quando se aposentou por ter 25 anos de trabalho efetivo.

Após tanta dedicação, falece Lúcia Novaes Brandão, a 4 de dezembro de 1969  na cidade de Cedral.

Mas Lúcia permanece viva no coração dos que tiveram a glória de sua convivência. E para que sua memória não se apague junto aos jovens de hoje, a E.E.P.G. “Lúcia Novais Brandão” conclamou-a como sua patrona.

HOMENAGEM - LUCIA NOVAIS BRANDÃO

Aos dez dias do mês de outubro de  um mil novecentos e oitenta e um, por ter se tornado patrona desse estabelecimento de ensino, prestaram-lhe uma merecida homenagem.

 

CÓPIA DO TRABALHO PREMIADO, APRESENTADO POR MEIRE ª SILVA, NO II CONCURSO DE MONOGRAFIAS DA CIDADE DE CEDRAL ( Prêmio “GARCIA-CUILLÉN” de incentivo à pesquisa) - 1984

 

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